IECBC e Pellon firmam cooperação e colocam Panda Bonds em debate
Encontro realizado em 20 de agosto discutiu como o acesso ao mercado chinês de títulos pode ampliar as opções de financiamento para empresas brasileiras.
O Instituto de Economia Criativa Brasil–China (IECBC) e a Pellon Advocacia celebraram, em 20 de agosto de 2026, a assinatura de um Termo de Cooperação na sede do escritório. O encontro estabeleceu uma nova frente de colaboração institucional e trouxe à discussão uma questão estratégica para a relação bilateral: como aproximar a dimensão financeira da escala já alcançada pelo comércio entre Brasil e China.
Em seu discurso, Leandro Su, vice-presidente do IECBC, destacou a importância das relações pessoais para a cooperação entre os dois países. “Antes de aproximarmos empresas, precisamos aproximar pessoas”, afirmou.
Para Su, a construção de parcerias duradouras depende da confiança cultivada ao longo do tempo. “Confiança não nasce de um documento. Ela nasce do convívio, do respeito e da credibilidade construída ao longo do tempo.”
Durante a programação, Paulo Alves, do IECBC, apresentou uma reflexão sobre os Panda Bonds, títulos emitidos por estrangeiros no mercado doméstico chinês. A pergunta que orientou sua exposição foi direta: o Brasil vai à China para captar recursos ou para construir um mercado?
A análise apresentada no encontro destacou que uma emissão soberana pode ter efeitos que ultrapassam o dinheiro levantado na estreia. Ao criar uma referência de preço em renminbi, ela pode contribuir para ampliar o acesso de empresas brasileiras a investidores e fontes de financiamento na China.
O que é um Panda Bond?
Panda Bond é um título de dívida denominado em renminbi (RMB), a moeda chinesa, e emitido no mercado da China continental por uma entidade estrangeira. Governos, empresas e instituições financeiras podem utilizar esse instrumento, observadas as regras aplicáveis a cada operação.
Na prática, o emissor capta recursos junto a investidores desse mercado e assume obrigações de pagamento na moeda da emissão. Para uma empresa, a conveniência depende do custo total, dos prazos e da compatibilidade com suas receitas e despesas.
O anúncio brasileiro e o estágio da operação
A apresentação de agosto usou como referência a intenção de emissão de até RMB 5 bilhões anunciada em junho. Em entrevista à Reuters publicada pela CNN Brasil em 25 de junho de 2026, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, descreveu esse valor como um limite pretendido para a estreia, ainda sem volume definitivo.
É importante distinguir esse anúncio de uma captação concluída. Os termos efetivos de uma oferta, incluindo volume, prazo e remuneração, dependem das aprovações necessárias e das condições de mercado.
Uma atualização posterior ao evento reforça essa distinção: em 12 de setembro, o InvestNews informou que a janela possível para a estreia se situava entre o final de setembro e outubro, ainda sujeita a aprovações e condições favoráveis. A reportagem mencionou uma estimativa em torno de RMB 10 bilhões. São referências divulgadas em momentos diferentes, e não resultados finais de uma emissão.
Por que uma referência soberana pode importar para empresas?
Na análise apresentada por Paulo Alves, a contribuição estratégica está na formação de referências para futuras operações. Uma emissão do governo brasileiro em renminbi pode oferecer aos investidores um parâmetro para avaliar o risco e o preço de outros emissores do país.
Isso não determina a taxa que cada empresa pagará. A qualidade de crédito, o prazo, as garantias, a liquidez e as características de cada operação continuam relevantes. Uma estreia também não constitui, sozinha, uma curva completa de juros: a recorrência e a oferta de diferentes vencimentos ajudam a construir essa referência ao longo do tempo.
Para companhias com fluxos de caixa em renminbi, captar na mesma moeda pode permitir um alinhamento entre receitas e obrigações, contribuindo para uma proteção natural contra oscilações cambiais. Ter negócios com a China, por si só, não assegura essa proteção: é preciso observar a moeda e os prazos dos pagamentos.
A experiência empresarial já existe
O mercado corporativo brasileiro conta com um precedente. Segundo a Suzano, a companhia captou RMB 1,2 bilhão em novembro de 2024 por meio de Green Panda Bonds, com recursos destinados a plantações certificadas de eucalipto no Brasil.
O exemplo citado na apresentação mostra que empresas podem acessar esse mercado independentemente de uma estreia soberana brasileira. A referência do governo seria um instrumento adicional para apoiar a avaliação de novas operações.
Uma relação comercial que já tem escala
O comércio bilateral alcançou aproximadamente US$ 171 bilhões em 2025, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC) com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O valor reúne exportações e importações de bens.
Essa escala dá contexto ao debate do encontro. A aproximação financeira pode ampliar as opções disponíveis para relações comerciais e investimentos que já existem, desde que cada estrutura seja adequada às necessidades de seus participantes.
O que observar depois da estreia
A exposição destacou cinco aspectos para acompanhar uma eventual emissão brasileira: volume, prazo, taxa, demanda e recorrência. Também ressaltou a necessidade de avaliar risco cambial, custo de proteção, liquidez e regras de utilização dos recursos.
Uma taxa nominal menor em outra moeda não significa, automaticamente, financiamento mais barato. A comparação exige considerar o custo total da operação.
Ao reunir a assinatura do Termo de Cooperação e essa discussão, o encontro entre IECBC e Pellon abriu espaço para aproximar o diálogo institucional de questões concretas da relação econômica Brasil–China. A pergunta que permanece é se o acesso soberano ao mercado chinês poderá se transformar em uma alternativa recorrente de financiamento.
Apresentação do painel
Panda Bond Brasil China — Paulo • IECBC, 20 de agosto de 2026. Material apresentado no evento, com referências históricas e dados de corte de agosto de 2026. Consulte a atualização sobre o estágio da operação no texto desta matéria.
Galeria do encontro
Registro do evento de 20 de agosto de 2026, na sede da Pellon Advocacia. Crédito: Acervo do evento.
17 fotografias selecionadas do encontro.
Fontes
- Apresentação “Panda Bond Brasil China”, fornecida pelo IECBC, e registros fotográficos do encontro.
- Discurso de Leandro Su, vice-presidente do IECBC, proferido no encontro; texto fornecido pelo IECBC.
- Reuters/CNN Brasil — anúncio de junho de 2026.
- InvestNews — estágio da operação em 12 de setembro de 2026.
- Suzano — emissão de novembro de 2024.
- CEBC — comércio bilateral em 2025, com dados do MDIC.